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03/12/2009 - 09h28

O nosso relacionamento com a natureza está mudando

 
 

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Por Marcelo Dutra Silva

 

Algo profundamente diferente está acontecendo a nossa volta e é possível perceber porque estamos todos a tudo conectados. Somos testemunhas de um novo momento global, onde a nossa civilização parece não se ajustar mais ao limites impostos pela natureza. Estamos superando sim, todos os limites e a forma mais evidentes do nosso descompasso na relação com a natureza é o aumento da população global.

 

No período final da segunda guerra mundial a população humana ultrapassava os 2,3 bilhões e hoje beira a incrível marca dos 6,5 bilhões, porém se reproduzida as expectativas de crescimento estimadas para 2050 a população humana deve chegar a 9 bilhões. Isso quer dizer que estamos colocando mais pressão sobre a Terra, sendo a maior parte nos ambientes das nações com menor desenvolvimento.

 

Estamos elevando a demanda por alimentos, por água e por recursos não-renováveis. Estamos sendo levados a destruir florestas, não só nas áreas tropicais, mas em outras partes do mundo. A ocupar áreas úmidas e invadir ambientes raros como o Cerrado brasileiro. A fragmentar paisagens campestres, algumas na Europa e outras no sul da América do Sul. Mas há uma mensagem nisso, a tecnologia, que institui o nosso poder de transformar o espaço. Temos que repensar o uso das nossas tecnologias, pois adquirimos um poder tão grande de transformar as "coisas" que não podemos continuar com os velhos métodos.

 

Desde a descoberta da agricultura ocupamos o espaço e cultivamos a terra da mesma forma, mas agora a nossa habilidade de transformação precisa acompanhar a demanda e as conseqüências podem ser desastrosas. Outra importante evidência de que estamos equivocados é a nossa forma de pensar sobre o ambiente natural. Temos uma impressão errada da disponibilidade dos recursos e serviços prestados pela natureza. Acreditamos que a terra é infinita, o que não passa de uma ilusão, e que podemos explorar os recursos, produzir bens e consumir indefinidamente, uma ilusão ainda maior.

 

Os Estados Unidos, por exemplo, é responsável por 30% das emissões anuais de carbono na atmosfera e isso é mais do que toda a America do Sul (3,8%), toda a África (2,5%), todo o Oriente Médio (2,6%) e toda a Ásia (12%), juntos. No entanto, diante da pressão e do movimento mundial para a redução das emissões de carbono e outros gases do aquecimento global, os norte americanos se mostram resistentes aos tratados e compromissos internacionais.

 

No Brasil o desmatamento da Amazônia para a criação de gado e produção de carne bovina ganha repercussão internacional com o boicote das redes supermercadistas que prometem não comercializar carne procedente de área de corte ilegal, no entanto a redução do desmatamento ainda é muito tímida e é preciso uma posição mais firme e fiscalizadora. Na região do Cerrado, o cultivo de soja vem reduzindo e descaracterizando a paisagem de uma das mais importantes expressões da biodiversidade brasileira.

 

No sul do Brasil, a redução das áreas naturais campestres se deve ao avanço dos monocultivos de eucalipto, algo que precisa melhor compreendido por todas as pessoas. A fragmentação, sem controle, dessas áreas com a introdução de elementos arbóreos pode reproduzir na paisagem prejuízos que só poderão ser medidos na escala de tempo. Por enquanto, o que se pode esperar é uma mudança no comportamento da biodiversidade, expectativa já confirmada em alguns locais profundamente alterados, onde o campo foi completamente substituído por algum tipo de atividade. No entanto, algo parece interferir em nossa capacidade de perceber o problema.

 

Ao tempo que escolhemos derrubar a Amazônia para produzir carne, estamos expulsando a pecuária do campo nativo para cultivar árvores e produzir celulose. E se é preciso tempo para se imprimir esse triste resultado, então estamos decidindo hoje o futuro que queremos para os nossos netos.

 

Marcelo Dutra Silva - ecólogo e professor de ecologia. Ecólogo e Professor de Ecologia

Fonte: Ecoagência

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