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Aves migratórias e nômades ocorrentes no Pantanal
Autores: Alessandro Pacheco Nunes
Walfrido Moraes Tomas
Embrapa Pantanal, Corumbá, MS, 2008
Home page: www.cpap.embrapa.br
Apresentação
"As garças descem nos
brejos que nem brisas.
Todas as manhãs".
(Manoel de Barros)
Na primeira vez que fui ao Pantanal, em 1984, passei pela mesma experiência de qualquer viajante leigo ou estudioso, dois níveis que - queiramos ou não - teremos para sempre um pouco de ambos. Pela regra, fiquei maravilhado com a riqueza de espécies de aves que podiam ser facilmente observadas. Foi, com certeza, um dos mais fortes indicativos de que as aves estariam para sempre em minha vida. Ao mesmo tempo, senti muito pela falta de livros bons e confiáveis, para que eu pudesse saber o nome e mais algumas informações sobre aquelas aves que passavam por cima de minha cabeça. E, claro, a sede de conhecimento se estendia para todo o ciclo de vida destes animais em particular suas migrações, deslocamentos ou simplesmente, de onde vinham e para onde iam a cada ciclo de águas, característica peculiar daquela região.
O Pantanal da década de 80 era quase desconhecido. Havia asfalto até Miranda e só. Mesmo assim, pescadores e caçadores vindos de fora se aglomeravam nas barrancas dos rios e, ao fim do tempo planejado, entupiam congeladores dentro de caminhões levando uma parte daquilo que muito tempo demorou para que fosse considerada uma riqueza, um patrimônio de todas as pessoas. A figura mais célebre por lá era o jaburu que, aliás, é tuiuiú no dialeto pantaneiro. Arara-azul? Quá! Nem pensar. Que dizer do arancuã, príncipe-negro, joaninha, casaca-de-couro, joão-pinto, jaó, quebra-coco, tabuiaiá, gavião-caramujeiro, taiamã, sangue-de-boi, bico-de-prata e todos os outros? Eram meros coadjuvantes de um cenário quase que desconhecido. As aves pantaneiras, no seu anonimato científico passavam mais ou menos pelo que narrou Manoel de Barros: "O nome de um passarinho que vive no cisco é joão-ninguém...".
Com o tempo, foram aparecendo muitos meios para se estudar e conhecer as aves pantaneiras. Livros, revistas, programas de TV e, modernamente, sites da internet. Mas ainda falta muito; e é assim que vejo a presente obra, que tenho a honra de apresentar.
Alessandro Pacheco Nunes e Walfrido Moraes Tomas; esses dois são tipos daquelas pessoas que vêm para ficar. Alessandro, ou udu, é estudante de pós-graduação em Ecologia e Conservação da UFMS e pesquisador bolsista na Embrapa Pantanal. Tem se dedicado há quase uma década à avifauna do Mato Grosso do Sul, inclusive coordenando a lista das aves ocorrentes neste tão pouco conhecido estado brasileiro, por ele escolhido como sua segunda localidade-tipo. Nada escapa ao seu olhar atento: vai da ecologia passa ao estudo com comportamento, visitando com mais freqüencia o campo da composição de avifauna, entremeado na biogeografia, que o permitiu escrever várias contribuições científicas, inclusive uma monografia sobre as aves ameaçadas do Pantanal. Com não menos dedicação costuma empoleirar, como aqui o fez, nos estudo da migração das aves e na importante tarefa de divulgar esses fenômenos para a conservação das aves e de todo o nosso ambiente. Walfrido é pesquisador da Embrapa Pantanal, na qual atua desde 1990 e onde tantas contribuições, preparou, versando sobre conservação e manejo da vida silvestre, sustentabilidade e muitos outros assuntos de cunho ecológico. Dedica-se mais aos mamíferos, mas sempre - e felizmente - com o olho gordo mirando as aves. Escreveu um guia para identificação de pegadas de mamíferos do Pantanal, vários capítulos de livros e muitos artigos sobre eles, em especial sobre o cervo-dopantanal. Mas também é sua a clássica revisão da avifauna do Pantanal, junto com Dárius Tubélis, estudo fundamental para a Ornitologia da região.
Não podia dar coisa melhor. As informações aqui apresentadas destacam-se sobre todas as outras que já foram publicadas, as quais sempre se concentraram na região litorânea do Brasil. Temos um apanhado sobre 235 espécies de aves, o que surpreende pela quantidade. Afinal, postula-se que quase metade das aves do Pantanal é migratória ou nômade, em larga ou estreita escala. Esse desassossego, poucas vezes abordado em estudos científicos, é característica constante na região e, ao mesmo tempo, bastante variável de acordo com as espécies. Há as que viajam longas distâncias, milhares de quilômetros; outras migram também para bem longe, porém dentro de nosso continente. E há, ainda, as que fazem pequenos deslocamentos.
Um importante componente deste estudo é a conservação. Não simplesmente as ações que mereceriam ser revistas para a proteção das aves migratórias no Brasil, mas também o tamanho da responsabilidade brasileira frente à necessidade de políticas integradas. Isso porque são tesouros que pertencem a dois, três ou muitos outros países que participam das jornadas migratórias, oferecendo locais adeqüados para sua estada.
Com isso, graças à detalhada obra que acabamos de receber como presente e como fonte técnica, temos tudo para lutar para que a famosa hospitalidade do povo pantaneiro seja igualmente usada para as nossas aves. Por que elas não estão somente por todos os cantos, mas também em nossos próprios encantos.
Por:
FERNANDO COSTA STRAUBE
Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais
Curitiba, Paraná
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