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O homem é o animal que mais desperdiça alimento. Geralmente come em grande quantidade, e por diversas vezes ao dia. Seus olhos instigam-o a comprar mais do que consegue consumir. Assim sendo, muita comida é desperdiçada.
O urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus, família Cathartidae), popularmente conhecido como urubu-comum, corvo, urubu-preto e apitã, é uma ave que se aproveita dessa insensatez humana para ajudar a limpar o meio em que vive. Em áreas usadas para pastagens de animais, cerrados, campos abertos, ele sobrevoa em círculos a procura de carne putrefada, carcaças, restos de animais mortos ou agonizantes, filhotes de tartarugas e outros animaizinhos indefesos.
Com a expansão das áreas urbanas (por conta do incessante crescimento populacional), mal planejamento urbano (derrubando árvores desnecessariamente, e quase zerando os sub-bosques), construções civis, esgotos a céu aberto, rios poluídos por dejetos e tantos outros materiais poluentes, o urubu, que já rondava as cidades à caça dos alimentos desperdiçados pelo homem, se inseriu em definitivo nelas.
É extremamente comum vermos o bater pesado das asas do comensal do homem, em terrenos fartos em sobras de comida. Ratos, cobras e lagartos são mais espertos, pois "reconhecem" o "faxineiro" e logo se escondem (apenas os agonizantes não têm como escapar).
O homem desperdiçador ainda se dá ao luxo de ser ignorante, alcunhando essa ave que o ajuda em sua insensatez alimentar, de agoureira, pois na residência ou quintal em que ela pousa, a desgraça e a morte acometem os que ali habitam. A natureza humana dribla-se para safar-se das insanidades praticadas e/ou aceitas, e assim, sempre tenta achar um culpado para as suas mazelas, e, nesse caso, o pobre urubu carrega consigo a fama que deveria pertencer ao homem.
O homem sim é agourento! Invejoso, deseja e pratica o mal contra sua própria espécie. Até aí tudo bem, já que pensa ser o melhor e o insubstituível na terra. Que os homens se digladiem, e que vençam os melhores ou mais sacanas, também está tudo certo, mas, se (re)voltarem contra todos os outros elementos que co-habitam este planeta, é no mínimo loucura. Desconhecer e agir de maneira que afete o TODO, desequilibrando-o, é bastante perigoso, pois afeta o homem diretamente.
Com exceção da grande maioria dos homens, a natureza é sábia. Ela vai se acomodando em conformidade com aquilo que a espera ou legaram. Então, seu sofrimento é amenizado, ou quase nulo, dependendo de qual reino pertence. Seria muito bom mesmo se fosse verdade que o urubu é ave agourenta, pois, com a presença cada vez maior dessas aves em áreas urbanas, muitos desmiolados desapareceriam da face da terra, deixando espaços preciosos para espécies que sabem respeitar a lei natural da sobrevivência.
Nicete Campos é jornalista, membro do Grupo REBECA (Rede Brasileira de Educomunicação Ambiental) e colunista do Portal Mais Interior.
e-mail: nicetecampos@yahoo.com.br
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